Corte Precoce do Cordão Umbilical: Para Que a Pressa?

O corte precoce do cordão umbilical é uma prática comum nos hospitais ao redor do mundo. Como se alguma coisa fosse acontecer se o bebê não fosse separado imediatamente de sua mãe e de sua fonte de oxigênio, sangue e nutrientes. Ou é uma pressa do profissional de acabar logo e passar para o próximo?

É uma prática enraizada na nossa cultura por milênios, e é reconhecia por Michel Odent como sendo mais uma  “desculpa” para a separação imediata entre mãe e bebê. Como no passado se acreditava  que o colostro (o primeiro leite) era prejudicial para o bebê.

Muitos estudos científicos têm comprovado os benefícios do corte tardio do cordão umbilical. Mas se pararmos para observar o lado do bebê e até outros mamíferos, fica fácil de entender.

O cordão umbilical sai do umbigo do bebê e se liga na placenta. A placenta por sua vez, está ligada a parte interna do útero materno. Durante toda sua vida o bebê recebeu oxigênio, sangue e nutrientes filtrados pela placenta. Envolto pela bolsa d’água, ele estava protegido, aquecido e confortavelmente apertado.

O parto é uma transição muito importante tanto para a mãe quanto para o bebê. O bebê passa pelo canal vaginal, o que estimula a saída de líquido pelas vias aéreas e também é importante para imunidade do bebê. Quando ele sai seus pulmões se expandem e a temperatura muda, estimulando a respiração.  Mas o cordão umbilical ainda está ligado no bebê como esteve durante 9 meses! E ainda continua pulsando, enviando oxigênio, sangue e nutrientes.

Dessa forma o bebê ainda recebe oxigênio do cordão umbilical e tem a chance de aprender  a respirar sem um corte abrupto dessa fonte. O cordão pode pulsar por vários minutos, soube de um cordão que pulsou por 40 minutos! Ele para de pulsar naturalmente e passa de um cordão grosso e cheio de vida para fino e branco. Eu já vi bebês muito saudáveis só resmungarem, dar um chorinho, mas logo pararem… mas na minha prática com parto domiciliar só cortávamos o cordão depois de a placenta sair.

Observe a foto do cordão umbilical ao longo de 15 minutos:

Cordão umbilical ao longo de 15 minutos
Se o corte é feito logo que o bebê sai, claro que ele vai dar aquele choro forte na hora, pois ele é obrigado a expandir os pulmões se não ele fica sem oxigênio! Além de também ficar sem o aporte sanguíneo que ele naturalmente deveria receber, que fica preso na placenta. Um desperdício! O bebê ganha cerca de 100 ml a mais de sangue pelo cordão umbilical até o 3° minuto de vida, o que é um volume considerável para um bebê. E esse aporte sanguíneo previne anemia no primeiro ano de vida. Há evidências suficientes para que aconteça a mudança na prática. Uma das recomendações da Organização Mundial de Saúde é o corte tardio do cordão umbilical.

Entre os outros mamíferos o corte do cordão umbilical é realizado depois da placenta ter nascido ou até mesmo horas após o parto. Pois se eles cortassem antes o filhotinho provavelmente teria uma hemorragia, pois eles não têm clamp para clampear o cordão umbilical e prevenir que saia sangue pelo coto umbilical. Então a natureza mostra que essa prática não é natural… não sei em que momento na história decidiram que cortar o cordão umbilical logo que o bebê nasce é benéfico. Mesmo o tétano neonatal poderia ser na sua grande maioria prevenido se o cordão umbilical fosse cortado algumas horas após o parto.

O cordão umbilical  também tem o tamanho perfeito para o bebê ir direto para o colo da sua mãe, sem que seja cortado. E é ali que o bebê precisa estar. Do lado de fora de onde ele estava, na barriga da sua mãe. Para a mãe também é um presente ter seu tão esperado bebê em seus braços, trocar cheiro e olhares.É um momento fundamental para o vínculo entre mãe e bebê. A amamentação geralmente inicia nessa hora.  É também confortante, pois o bebê estava dentro da sua barriga, então não dá aquela sensação de “vazio”. Também estimula a liberação de ocitocina materna e faz um peso no útero, evitando hemorragia e estimulando a saída da placenta.

Então, para que a pressa? A pressa é inimiga da perfeição!

É tão simples, não requer mais habilidades, equipamentos ou investimento.

Mas requer uma coisa: Paciência do profissional.  Apenas esperar alguns minutos traz tantos benefícios!

A natureza é muito Sábia.

 

 

4 Comments

  1. Maria Elvira Reply

    São tantas as práticas inadequadas na sala de parto … a conclusão que se chega é a de que os médicos precisam aprender mais. Inclusive aprender a ouvir.

  2. Priscila Maruoka Reply

    A pratica do clampeamento imediato vem de recomendaçōes da obstetricia e neonatologia como principal argumento a prevenção da ictericia e policitemia do bebê; apesar de muitas pessoas associarem à pressa do médico. Mas essa prática vem sofrendo críticas sim dentro das especialidades, e estudos estão comprovando que o clampeamento tardio tem mais beneficio ao bebê. Entende-se como clampeamento tardio aquele feito após 1minuto do parto, onde 80%do volume sanguineo já foi passado da placenta para o bebê, e lembrando sempre de colocar o bebê no nivel ou abaixo da placenta para prevenir a policitemia (aumento da viscosidade sanguínea).
    Os estudos indicam que esse clampeamento tardio previne a necessidade de transfusão neonatal, diminui a incidência de hemorragia intracraniana nos prematuros e diminui a incidência de anemia e deficiência de ferro na primeira infância; além de ser enriquecido de imunoglobulinas e células tronco, que ajudam na recuperação tecidual no pós parto. Porém não há estudos que comprovem a eficácia ou se há aumento do risco para o bebê no clampeamento mais tardio (como por exemplo até o cordão parar de pulsar). O atraso no clampeamento pode comprometer a reanimação neonatal (caso necessário), aumenta o risco de policitemia e icterícia grave neonatal, principalmente para os grupos de risco: diabetes materna, restrição de crescimento intrauterino, altas altitudes.
    Ao nascimento é necessário o choro do bebê para a expansão dos pulmões, pois a circulaçao fetal é diferente da neonatal (por não envolver mais a placenta), havendo alteração no fluxo sanguineo e os pulmões se tornam os responsaveis pelo fornecimento do oxigênio para o corpo.
    (Fonte:
    “Timing of umbilical cord clamping after birth”. http://www.acog.org/Resources-And-Publications/Committee-Opinions/Committee-on-Obstetric-Practice/Timing-of-Umbilical-Cord-Clamping-After-Birth
    “Efeitos do clampeamento tardio do cordão umbilical sobre os níveis de hemoglobina e ferritina em lactentes com 3 meses de vida”. http://www.scielosp.org/pdf/csp/v24s2/17.pdf )

    1. Larissa Grandi Reply

      Priscila, agradeço o seu comentário.
      Como o seu próprio estudo do scielo mencionou, está evidente a diminuição da incidência de anemia no bebê até 6 meses de vida. Ainda há estudos que falam até os 3 anos de idade.
      Sim, ainda não temos estudos sérios randomizados mostrando benefícios/maleficios do clampeamento “prolongado”como vc mencionou.
      Porém, esta é a prática de muitas parteiras contemporâneas pelo mundo todo de não separar o binômio para reanimação. Isso se dá da teoria que o cordão umblical supre também o bebê, principalmente neste momento que ele pode estar debilitado. Para reanimar, fazemos todos os procedimentos de reanimação com mãe e bebê ainda “conectados” em uma superficie plana, proximo a mãe.
      Seria um prazer trocar essas informações com você.

  3. Pingback: Os benefícios para a saúde do bebê ao atrasar o corte do cordão umbilical – Desmitificando mitos da vida materna

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